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A FÊNIX NA ESPADA
Por Robert E. Howard
Publicado pela primeira vez em Weird Tales, dezembro de 1932
Texto original: The Phoenix on the Sword
Traduzido e revisado por Rafael L. G. Correia, com o auxílio de IAs
CAPÍTULO 1
“Saiba, ó príncipe, que entre os anos em que os oceanos tragaram a Atlântida e as cidades resplandecentes, e os anos da ascensão dos Filhos de Aryas, houve uma Era que sequer os sonhos ousaram conceber, quando reinos luminosos estendiam-se pelo mundo como mantos azulados sob as estrelas — Nemédia, Ophir, Britúnia, Hiperbórea, Zamora, com suas damas de negras madeixas e torres misteriosas habitadas por aranhas, Zingara com sua cavalaria, Koth, que margeava as terras pastoris de Shem, Stygia, com seus sepulcros guardados por sombras, e a Hirkânia, cujos cavaleiros trajavam aço, seda e ouro. Mas o reino de maior altivez no mundo era a Aquilônia, soberana inconteste do poente onírico. Ali chegou Conan, o cimério, de cabelos negros, olhar taciturno, espada em punho; um ladrão, um saqueador, um matador, portador de melancolias e júbilos titânicos, para calcar sob suas sandálias os tronos incrustados de gemas da Terra.”
— As Crônicas Nemedianas
Sobre os pináculos sombreados e as torres cintilantes pairava a espectral obscuridade e o silêncio que antecede a aurora. Em um beco tenebroso, fragmento de um verdadeiro labirinto de sinuosos caminhos misteriosos, quatro vultos mascarados emergiram céleres de uma porta que uma mão negra furtivamente franqueara. Não se comunicavam, mas moviam-se com presteza pelas sombras, com os mantos bem cingidos ao corpo; silentes como fantasmas de homens assassinados, dissiparam-se nas trevas. Atrás deles, uma fisionomia sardônica emoldurava-se na porta semicerrada; um par de olhos malignos fulgurou perversamente na penumbra.
— Ide para a noite, criaturas da noite — escarneceu — Ah, insensatos, vossa perdição persegue vossos calcanhares como um cão cego, e dela nada suspeitais.
O interlocutor cerrou a porta e a trancou, então voltou-se e percorreu o corredor, vela em punho. Era um vulto sombrio e colossal, cuja tez escura denunciava seu sangue stígio. Adentrou uma câmara interior, onde um homem de elevada estatura e compleição delgada, em veludo puído, repousava qual felino indolente sobre um divã de seda, sorvendo lentamente vinho de uma suntuosa taça dourada.
— Pois bem, Ascalante — disse o stígio, depositando a vela —, vossos ingênuos esgueiraram-se pelas ruas como ratos a fugir para suas tocas. Empregais instrumentos deveras peculiares.
— Instrumentos? — retrucou Ascalante. — Ora, é assim que me consideram. Há meses, desde que os Quatro Rebeldes convocaram-me do deserto ao sul, tenho habitado o âmago dos meus inimigos, ocultando-me durante o dia nesta residência obscura, deslizando por becos sombrios e corredores mais sombrios ainda à noite. E logrei realizar o que aqueles nobres insurgentes não puderam. Operando por seu intermédio e através de outros agentes, muitos dos quais jamais contemplaram minha face, consegui infundir no império a sedição e a inquietude. Em suma, eu, laborando nas sombras, pavimentei a queda do rei que se assenta no trono à luz do sol. Por Mitra, fui um estadista antes de converter-me em um proscrito.
— E esses simplórios que se julgam vossos senhores?
— Continuarão a supor que os sirvo, até que nossa tarefa presente se conclua. Quem são eles para rivalizar em astúcia com Ascalante? Volmana, o conde anão de Karaban; Gromel, o comandante gigantesco da Legião Negra; Dion, o obeso barão de Attalus; Rinaldo, o menestrel de espírito irrequieto. Sou eu a força que amalgamou o aço em cada um deles, e pela argila que neles habita, hei de esmagá-los quando a hora propícia chegar. Mas isso jaz no porvir; esta noite o rei há de perecer.
— Dias atrás, observei os esquadrões imperiais partirem da cidade — comentou o stígio.
— Dirigiram-se à fronteira que os pictos bárbaros assaltam — graças ao licor forte que contrabandeei para além das fronteiras a fim de enlouquecê-los. A vasta fortuna de Dion tornou tudo exequível.
E Volmana possibilitou o afastamento das demais tropas imperiais que permaneceram na cidade. Por intermédio de seus parentes reais na Nemédia, foi sem dificuldade que persuadiu o rei Numa a requisitar a presença do conde Trócero de Poitain, senescal da Aquilônia; e, naturalmente, para prestar-lhe as devidas honras, será escoltado por uma guarda imperial, bem como por suas próprias tropas, e Próspero, o braço direito do rei Conan. Remanescem apenas a guarda pessoal do rei na cidade — além da Legião Negra. Através de Gromel, corrompi um oficial pródigo dessa guarda, e o subornei para afastar seus homens da porta do rei à meia-noite.
Então, com dezesseis facínoras desesperados a meu serviço, penetraremos no palácio por uma passagem secreta. Após a consumação do ato, mesmo que o povo não se erga para acolher-nos, a Legião Negra de Gromel será suficiente para assegurar a cidade e a coroa.
— E Dion presume que tal coroa lhe será outorgada?
— Precisamente. O obeso néscio a reivindica em razão de um vestígio de sangue real. Conan incorre em grave erro ao permitir a sobrevivência de homens que ainda se vangloriam de descender da antiga dinastia, da qual ele arrebatou a coroa da Aquilônia.
Volmana almeja ser restituído ao favor real como era sob o regime precedente, para que possa reerguer suas propriedades empobrecidas à sua antiga magnificência. Gromel abomina Pallantides, comandante dos Dragões Negros, e cobiça o comando de todo o exército, com toda a obstinação de um bossoniano.
Dentre todos nós, somente Rinaldo não nutre ambições pessoais. Ele vislumbra em Conan um bárbaro rústico e sanguinário, um invasor vindo do norte para pilhar uma terra civilizada. Idealiza o rei que Conan abateu para apoderar-se da coroa, recordando apenas que este ocasionalmente patrocinava as artes, esquecendo os males de seu reinado, e induz o povo a esquecer também. Já entoam abertamente O Lamento pelo Rei, no qual Rinaldo exalta o santificado vilão e denuncia Conan como ‘aquele selvagem de coração tenebroso oriundo do abismo’. Conan ri-se, mas o povo rosna.
— Por que razão ele detesta Conan?
— Poetas invariavelmente detestam aqueles investidos de poder. Para eles, a perfeição se encontra logo atrás da última esquina, ou na seguinte. Escapam do presente em devaneios sobre o passado e o futuro. Rinaldo é uma tocha flamejante de idealismo, erguendo-se, segundo sua concepção, para derrubar um tirano e libertar o povo.
Quanto a mim — bem, alguns meses atrás eu havia renunciado a toda ambição exceto a de assaltar caravanas pelo restante de meus dias; agora, antigas aspirações voltam a agitar-se. Conan expirará; Dion ascenderá ao trono. Em seguida, ele também perecerá. Um após outro, todos que a mim se opõem encontrarão a morte — pelo fogo, pelo aço, ou por aqueles vinhos letais que tão bem sabes preparar. Ascalante, rei da Aquilônia! Como te soa tal designação?
O stígio ergueu seus ombros largos num gesto indiferente.
— Houve uma época — pronunciou com amargor manifesto — em que eu também alimentava minhas ambições, diante das quais as vossas afiguram-se vulgares e pueris. A que condição degradante cheguei! Meus antigos pares e rivais decerto se espantariam se pudessem contemplar Thoth-Amon, do Anel, servindo como escravo de um forasteiro, e um proscrito ainda por cima; e auxiliando nas mesquinhas ambições de barões e monarcas!
— Depositaste tua confiança em magia e simulacros — replicou Ascalante com displicência. — Eu confio em minha argúcia e minha espada.
— Argúcia e espadas são como palhas contra a sabedoria das Trevas — rosnou o stígio, seus olhos escuros cintilando com luzes e sombras ameaçadoras. — Não houvesse eu perdido o Anel, nossas posições estariam invertidas.
— Não obstante — redarguiu o proscrito com impaciência —, portas as marcas de meu açoite em tuas costas, e é provável que continues a portá-las.
— Não estejas tão convicto! — o ódio demoníaco do stígio brilhou por um instante, rubro, em seus olhos. — Um dia, por algum meio, encontrarei o Anel novamente, e quando o fizer, pelas presas serpentinas de Set, haverás de pagar…
O aquiloniano de temperamento ardente ergueu-se e o golpeou pesadamente na boca. Thoth recuou cambaleante, com sangue escorrendo de seus lábios.
— Tornas-te demasiado audacioso, cão — rosnou o proscrito. — Cautela; ainda sou teu senhor, conhecedor de teu segredo sombrio. Vai aos telhados e brade que Ascalante encontra-se na cidade conspirando contra o rei… se ousares.
— Não ouso — murmurou o stígio, limpando o sangue dos lábios.
— Não, não ousas — Ascalante sorriu com frieza. — Pois se eu perecer por tua astúcia ou traição, um sacerdote eremita no deserto meridional disso tomará ciência, e romperá o selo de um manuscrito que deixei em suas mãos. E tendo-o lido, suas palavras serão sussurradas na Stygia, e um vento soprará do sul à meia-noite. E onde haverás de ocultar tua cabeça, Thoth-Amon?
O escravo estremeceu e sua tez escura empalideceu.
— Basta! — Ascalante alterou seu tom peremptoriamente. — Tenho uma incumbência para ti. Não confio em Dion. Ordenei-lhe que cavalgasse para sua propriedade rural e lá permanecesse até que o trabalho desta noite esteja concluído. O gordo tolo jamais lograria dissimular seu nervosismo perante o rei. Cavalga em sua perseguição, e se não o alcançares na estrada, prossegue até sua propriedade e permanece a seu lado até que o convoquemos. Não o percas de vista. Encontra-se aturdido pelo pavor, e poderia fugir precipitadamente — poderia até mesmo correr ao encontro de Conan em desespero e revelar todo o plano, na esperança de assim salvaguardar sua própria pele. Vai!
O escravo curvou-se, ocultando o ódio em seu olhar, e fez conforme lhe fora ordenado. Ascalante voltou-se novamente para seu vinho. Sobre as torres adornadas de gemas nascia uma aurora rubra como sangue.
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