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A FÊNIX NA ESPADA

Por Robert E. Howard

Publicado pela primeira vez em Weird Tales, dezembro de 1932
Texto original: The Phoenix on the Sword
Traduzido e revisado por Rafael L. G. Correia, com o auxílio de IAs

CAPÍTULO 2

Quando eu era só um guerreiro, os tambores ressoavam;
Pó de ouro aos pés de meu cavalo as pessoas jogavam;
Agora que sou um grande rei, as pessoas espreitam meu caminho,
Com veneno em meu cálice de vinho e punhais em minhas costas.
— A Estrada dos Reis

A sala era vasta e primorosamente ornada, com tapeçarias opulentas nas paredes de painéis polidos, tapetes suntuosos sobre o piso de marfim, e o teto elevado adornado com entalhes intrincados e arabescos de prata. Atrás de uma mesa de marfim, incrustada de ouro, encontrava-se um homem cujos ombros largos e pele bronzeada pelo sol pareciam deslocados em meio àquele ambiente de luxo requintado. Ele parecia pertencer mais ao sol e aos ventos e aos lugares altos de terras distantes.

Seu mais sutil movimento revelava músculos tensos como molas de aço, ligados a um intelecto perspicaz com a coordenação própria de um homem nascido para o combate. Nada havia de deliberado ou comedido em suas ações. Ou permanecia em absoluto repouso — imóvel qual estátua de bronze — ou estava em movimento, não com a brusquidão espasmódica de nervos em excesso de tensão, mas com uma celeridade felina que confundia o olhar que tentasse acompanhá-lo.

Suas vestimentas eram de tecido nobre, mas de confecção simples. Não trazia anéis ou ornamentos, e sua cabeleira negra de corte quadrado estava presa apenas por uma faixa de tecido prateado ao redor da cabeça.

Pousou então o pincel dourado com o qual estivera laboriosamente a rabiscar num papiro encerado, apoiou o queixo sobre o punho e fixou seus intensos olhos azuis, com certa inveja, no homem que se encontrava diante dele. Este último ocupava-se com seus próprios afazeres naquele momento, pois ajustava os laços de sua armadura adornada de ouro e assobiava distraidamente — comportamento bastante impróprio, considerando-se que estava na presença de um soberano.

— Próspero — disse o homem à mesa —, esses assuntos de Estado fatigam-me como jamais me extenuaram todos os combates que travei.

— Tudo faz parte do jogo, Conan — respondeu o poitainiano de olhos escuros. — És rei — deves desempenhar tal papel.

— Quisera poder cavalgar contigo até a Nemédia — disse Conan, manifestando sua inveja. — Afigura-se-me que há séculos não tenho um cavalo entre os joelhos — mas Publius afirma que os negócios da cidade reclamam minha presença. Maldito seja!

Quando derruí a antiga dinastia — continuou, falando com a familiaridade que só existia entre ele e o poitainiano —, foi tarefa assaz fácil, conquanto parecesse terrivelmente árdua na ocasião. Contemplando agora a senda selvagem que trilhei, todos aqueles dias de labuta, intriga, matança e tribulação parecem-me um sonho.

Não sonhei com a devida profundidade, Próspero. Quando o Rei Numedides jazia morto a meus pés e arranquei a coroa de sua cabeça ensanguentada para assentá-la sobre a minha, havia eu alcançado a fronteira última dos meus sonhos. Preparara-me para tomar a coroa, não para conservá-la. Nos velhos dias de liberdade, tudo quanto eu almejava era uma espada afiada e um caminho reto até meus inimigos. Agora, caminho algum se apresenta retilíneo e minha espada jaz inútil.

Quando destronei Numedides, era eu o Libertador — agora, cospem na minha sombra. Ergueram uma estátua daquele suíno no templo de Mitra, e as pessoas para lá acorrem e lamentam-se ante ela, saudando-a como a sagrada efígie de um monarca santificado que foi assassinado por um bárbaro sanguinário. Quando conduzi seus exércitos à vitória como mercenário, a Aquilônia desconsiderou o fato de que eu era estrangeiro, mas agora não me perdoa por isso.

Agora, ao templo de Mitra, vêm queimar incenso em memória de Numedides homens que seus carrascos mutilaram e cegaram, homens cujos filhos pereceram em seus calabouços, cujas esposas e filhas foram arrastadas para seu harém. Idiotas volúveis!

— Rinaldo é, em grande parte, responsável — respondeu Próspero, ajustando o cinto da espada. — Ele compõe canções que ensandecem os homens. Enforque-o com suas vestes de bobo da corte na torre mais excelsa da cidade. Que faça rimas para os abutres.

Conan agitou sua cabeça leonina.

— Não, Próspero, ele encontra-se além do meu alcance. Um grande poeta sobrepuja qualquer rei. Suas canções possuem mais pujança que meu cetro, porquanto quase me extirpou o coração do peito quando optou por cantar para mim. Hei de morrer e ser esquecido, mas as canções de Rinaldo perdurarão eternamente.

Não, Próspero — prosseguiu o rei, com uma sombria expressão de dúvida velando-lhe os olhos —, há algo oculto, alguma corrente subjacente da qual não temos ciência. Percebo-a assim como na minha juventude percebia o tigre oculto na relva alta. Há uma inquietação inominada por todo o reino. Sou como um caçador que se acocorou junto a sua pequenina fogueira em meio à floresta, e ouve passos furtivos nas trevas, e quase vislumbra o fulgor de olhos ardentes que o observam.

Se ao menos pudesse entrar em conflito com algo tangível, algo que pudesse golpear com minha espada! Digo-te, não é por mero acaso que os pictos têm, nos últimos tempos, assaltado as fronteiras com tamanha ferocidade, a ponto de os bossonianos haverem solicitado auxílio para repeli-los. Eu deveria ter cavalgado com as tropas.

— Publius receava um ardil para atrair-te e dar-te a morte além da fronteira — replicou Próspero, alisando sua sobreveste de seda sobre a cota de malha resplandecente e admirando sua figura alta e esbelta num espelho de prata. — Por isso insistiu para que permanecesses na cidade. Tais dúvidas nascem de teus instintos bárbaros. Deixa que o povo rosne! Os mercenários são nossos, como também os Dragões Negros, e cada desordeiro em Poitain jura por ti. Teu único perigo é ser assassinado, e isso é impossível, com homens das tropas imperiais a guardar-te dia e noite. Em que te ocupas aí?

— Um mapa — respondeu Conan com manifesto orgulho. — Os mapas da corte revelam com acerto os países do sul, leste e oeste, mas no norte mostram-se vagos e imprecisos. Estou acrescentando as terras setentrionais por minha própria mão. Aqui está a Ciméria, onde nasci. E…

— Asgard e Vanaheim — Próspero examinou o mapa. — Por Mitra, quase acreditei que tais países fossem mera fábula.

Conan sorriu com ferocidade, tocando involuntariamente as cicatrizes em seu semblante escuro.

— Terias sabido o contrário, houvesses passado tua juventude nas fronteiras setentrionais da Ciméria! Asgard situa-se ao norte, e Vanaheim a noroeste da Ciméria, e há guerra contínua ao longo das fronteiras.

— Que espécie de homens são esses povos nórdicos? — indagou Próspero.

— Altos, de tez clara e olhos azuis. Seu deus é Ymir, o gigante do gelo, e cada tribo possui seu próprio rei. São inconstantes e impetuosos. Lutam durante todo o dia e bebem cerveja e entoam suas canções selvagens por toda a noite.

— Então julgo que és como eles — riu-se Próspero. — Ris com intensidade, bebes copiosamente e bramas canções vigorosas; embora jamais tenha eu visto outro cimério que bebesse coisa diversa de água, ou que alguma vez risse, ou jamais cantasse senão para entoar lúgubres elegias.

— Talvez seja a terra em que habitam — respondeu o rei. — Não existe terra mais soturna — toda ela de colinas, densamente arborizadas, sob céus quase sempre plúmbeos, com ventos que gemem melancolicamente através dos vales.

— Não admira que os homens se tornem taciturnos naquelas paragens — observou Próspero com um ligeiro erguer de ombros, pensando nas planícies sorridentes banhadas pelo sol e nos rios azuis e indolentes de Poitain, a província mais ao sul da Aquilônia.

— Não nutrem esperança aqui ou no além — respondeu Conan. — Seus deuses são Crom e sua raça sombria, que governa sobre um lugar desprovido de sol, de névoa perene, que constitui o mundo dos mortos. Mitra! Os caminhos dos Aesir eram mais condizentes com meu agrado.

— Ora — sorriu Próspero —, as colinas escuras da Ciméria jazem bem atrás de ti. E agora parto. Beberei uma taça de vinho branco nemediano em teu nome na corte de Numa.

— Excelente — grunhiu o rei —, mas beija as dançarinas de Numa apenas por ti mesmo, para não envolver os Estados!

Sua gargalhada tempestuosa acompanhou Próspero para fora da câmara.

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