Para melhor experiência de leitura e para ajudar a manter nosso projeto, considere adquirir o eBook de nossa tradução de A Fênix na Espada, na Amazon - https://www.amazon.com.br/dp/B0F54K7JK1
A FÊNIX NA ESPADA
Por Robert E. Howard
Publicado pela primeira vez em Weird Tales, dezembro de 1932
Texto original: The Phoenix on the Sword
Traduzido e revisado por Rafael L. G. Correia, com o auxílio de IAs
CAPÍTULO 3
Nas cavernas sob as pirâmides, o grande Set enrolado dorme,
Em meio às sombras das tumbas, seu povo sombrio rasteja.
Eu pronuncio a Palavra dos abismos ocultos que nunca conheceram o sol —
Envie-me um servo para meu ódio, ó escamoso e reluzente.
O sol declinava, gravando em breve dourado o verde e o azul nebuloso da floresta. Os raios minguantes cintilavam na grossa corrente dourada que Dion de Attalus não cessava de retorcer em sua mão rechonchuda, enquanto se sentava em meio ao suntuoso tumulto de botões e árvores floridas que compunham seu jardim. Ele acomodou seu corpo obeso no assento de mármore e perscrutou os arredores com olhar furtivo, qual homem em busca de um inimigo oculto.
Encontrava-se dentro de uma alameda circular de árvores delgadas, cujos galhos entrelaçados projetavam densa sombra sobre sua figura. Próxima, uma fonte tilintava seus acordes prateados, e outras fontes, que não estavam visíveis, em diversas partes do vasto jardim, murmuravam uma sinfonia perene.
Dion achava-se sozinho, exceto pela grande figura sombria que se acomodava num banco de mármore ao seu lado, observando o barão com olhos profundos e melancólicos. Dion pouca atenção concedia a Thoth-Amon. Sabia vagamente que ele era um escravo em quem Ascalante depositava notável confiança, mas, à semelhança de tantos homens abastados, Dion dedicava escassa consideração aos homens de condição inferior à sua.
— Não há necessidade de tal nervosismo — disse Thoth. — O plano não pode falhar.
— Ascalante pode cometer erros como qualquer outro — retrucou Dion bruscamente, transpirando só de considerar a possibilidade de fracasso.
— Ele não — sorriu o stygio com ferocidade —, do contrário, eu não seria seu escravo, mas seu senhor.
— Que conversa é essa? — contestou Dion, irritadiço, com apenas metade da atenção no diálogo.
Os olhos de Thoth-Amon se estreitaram. Apesar de todo seu férreo autodomínio, estava prestes a explodir com a vergonha, o ódio e a fúria há muito reprimidos, disposto a qualquer tipo de oportunidade desesperada. O que ele não calculava era o fato de que Dion o enxergava não como um ser humano dotado de cérebro e engenho, mas simplesmente como um escravo e, como tal, uma criatura indigna de consideração.
— Escuta-me — disse Thoth. — Serás rei. Mas pouco conheces da índole de Ascalante. Não podes confiar nele, uma vez que Conan sucumba. Eu posso auxiliar-te. Se me protegeres quando assumires o poder, eu te ampararei.
Escuta, meu senhor. Eu era um grande feiticeiro no sul. Os homens falavam de Thoth-Amon como falavam de Rammon. O rei Ctesphon da Stygia concedeu-me grande honra, derrubando os magos das altas posições para exaltar-me acima deles. Odiavam-me, mas temiam-me, pois eu controlava seres do além que acudiam ao meu chamado e cumpriam minhas ordens. Por Set, meu inimigo jamais sabia a hora em que poderia despertar no meio da noite para sentir as garras de um horror inominável em sua garganta! Eu praticava magia negra e terrível com o Anel da Serpente de Set, que encontrei num sepulcro tenebroso a uma légua nas profundezas da terra, esquecido antes que o primeiro homem se arrastasse para fora do mar lodoso.
Todavia, um ladrão roubou o Anel e meus poderes se perderam. Os magos ergueram-se para aniquilar-me, e eu fugi. Disfarçado como condutor de camelos, viajava em uma caravana na terra de Koth, quando os salteadores de Ascalante nos assaltaram. Todos na caravana pereceram, exceto eu; salvei minha vida revelando minha identidade a Ascalante e jurando servi-lo. Amarga tem sido essa servidão!
Para manter-me sob seu jugo, escreveu sobre mim num manuscrito, selou-o e entregou-o nas mãos de um eremita que habita nas fronteiras ao sul de Koth. Não ouso cravar-lhe um punhal enquanto dorme, ou traí-lo aos seus inimigos, pois então o eremita abriria o manuscrito e leria — como foi instruído por Ascalante. E depois espalharia a notícia na Stygia…
Novamente Thoth estremeceu e um tom acinzentado tingiu sua pele escura.
— Os homens não me conheciam na Aquilônia — disse ele. — Mas se meus inimigos na Stygia descobrirem meu paradeiro, nem a largura de meio mundo entre nós bastaria para salvar-me de um destino que destruiria a alma de uma estátua de bronze. Apenas um rei com castelos e legiões de espadachins poderia proteger-me. Assim, revelei-te meu segredo, e insisto para que celebres um pacto comigo. Posso prestar-te auxílio com minha sabedoria, e tu podes oferecer-me proteção. E um dia, encontrarei o Anel…
— Anel? Anel? — Thoth havia subestimado o absoluto egoísmo do homem. Dion sequer estivera ouvindo as palavras do escravo, tão profundamente absorto estava em seus próprios pensamentos, mas a palavra final provocou uma ondulação em seu autocentramento. — Anel? — repetiu ele. — Isso me faz recordar meu anel da boa sorte. Obtive-o de um ladrão semita que jurou tê-lo furtado de um mago muito ao sul, e que me traria sorte. Paguei o suficiente por ele, Mitra o sabe. Pelos deuses, necessito de toda a sorte que puder obter, com Volmana e Ascalante arrastando-me para seus planos sangrentos — verificarei o anel.
Thoth ergueu-se de um salto, o sangue subindo com violência ao seu rosto, enquanto seus olhos chamejavam com a fúria atordoada de um homem que subitamente compreende toda a profundidade da estupidez suína de um tolo. Dion nem o notou. Erguendo uma tampa secreta no assento de mármore, tateou por um momento entre um acervo de bugigangas de várias espécies – amuletos bárbaros, fragmentos de ossos, peças de joalheria vulgar — talismãs de toda sorte e artefatos mágicos que a natureza supersticiosa do homem o havia impelido a colecionar.
— Ah, eis aqui! — Ergueu triunfante um anel de feitio singular. Era de um metal semelhante ao cobre, e possuía a forma de uma serpente escamosa, enrodilhada em três voltas, com a cauda na boca. Seus olhos eram gemas amarelas que reluziam perniciosamente.
Thoth-Amon bradou como se houvesse sido golpeado, e Dion virou-se e ficou boquiaberto, o rosto subitamente pálido. Os olhos do escravo flamejavam, sua boca escancarada, suas enormes mãos escuras estendidas quais garras.
— O Anel! Por Set! O Anel! — gritou ele. — Meu Anel — roubado de mim…
O aço reluziu na mão do stygio e, com uma contração de seus volumosos ombros largos, ele cravou o punhal no corpo adiposo do barão. O guincho estridente de Dion rompeu-se num gorgolejo estrangulado e toda sua forma flácida desabou qual manteiga derretida. Néscio até o fim, pereceu em terror insano, ignorando o motivo. Arremessando para o lado o cadáver inerte, já esquecendo-se dele, Thoth segurou o anel com ambas as mãos, seus olhos escuros cintilando com uma terrível avidez.
— Meu Anel! — sussurrou ele em terrível exultação. — Meu poder!
Por quanto tempo permaneceu agachado sobre aquele objeto funesto, imóvel como uma estátua, sorvendo sua aura maléfica para dentro de sua alma sombria, nem mesmo o stygio saberia precisar. Quando se arrancou de seu devaneio e retirou sua mente dos abismos noturnos onde estivera a perscrutar, a lua já nascia, lançando longas sombras no liso encosto de mármore do banco do jardim, aos pés do qual se estendia a sombra mais escura do que outrora fora o senhor de Attalus.
— Não mais, Ascalante, não mais! — sussurrou o stygio, e seus olhos ardiam vermelhos como os de um vampiro na penumbra. Inclinando-se, recolheu um punhado de sangue coagulado da poça em que jazia sua vítima, e untou com ele os olhos da serpente de cobre até que as faíscas amarelas fossem cobertas por uma máscara carmesim.
Cega teus olhos, serpente mística — ele entoou num sussurro de gelar o sangue. — Cega teus olhos para o luar e abre-os em abismos mais profundos! Que vislumbras, ó serpente de Set? A quem invocas dos abismos da Noite? De quem é a sombra que se projeta sobre a luz minguante? Convoca-o para mim, ó serpente de Set!
Acariciando as escamas com um movimento circular peculiar de seus dedos, um gesto que sempre reconduzira os dedos ao ponto de partida, sua voz tornou-se ainda mais grave enquanto murmurava nomes obscuros e encantamentos terríveis já esquecidos em todo o mundo, exceto nos confins sombrios da escura Stygia, onde formas monstruosas se movem à sombra dos túmulos.
Houve uma agitação no ar ao seu redor, semelhante ao redemoinho que se forma na água quando uma criatura emerge à superfície. Um vento gélido e inominável soprou sobre ele brevemente, como se emanasse de uma porta entreaberta. Thoth pressentiu uma presença às suas costas, mas não se virou. Manteve os olhos fixos no pedaço de mármore banhado pelo luar, sobre o qual pairava uma tênue sombra.
À medida que prosseguia a sussurrar encantos, essa sombra cresceu em tamanho e nitidez, até destacar-se, distinta e horripilante. Seu contorno não era diverso do de um babuíno gigantesco, mas nenhum símio dessa natureza jamais pisara a terra, nem mesmo na Stygia. Ainda assim, Thoth não o olhou, mas, retirando de seu cinto uma sandália de seu senhor — sempre portada na tênue expectativa de que pudesse empregá-la em tal uso —, arremessou-a para trás.
— Examina-a bem, escravo do Anel! — exclamou. — Encontra aquele que a usava e aniquila-o! Contempla seus olhos e destrói sua alma, antes de dilacerar sua garganta! Mata-o! Sim — em uma explosão cega de fúria —, e todos os que estiverem com ele!
Projetada na parede iluminada pela lua, Thoth viu o horror inclinar sua cabeça disforme e farejar como algum cão medonho. Então, a cabeça horrenda deu uma guinada para trás e a coisa virou-se e desapareceu como um vento por entre as árvores. O stygio ergueu os braços em exultação delirante, e seus dentes e olhos cintilavam ao luar.
Um soldado que montava guarda para além dos muros bradou em pavor quando uma grande sombra negra que se movia em saltos, com olhos flamejantes, transpôs a muralha e passou por ele num turbilhão de vento. Mas ela se foi tão rapidamente que o desnorteado guerreiro ficou a indagar-se se não fora um sonho ou uma alucinação.
Próximo Capítulo
