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A FÊNIX NA ESPADA
Por Robert E. Howard
Publicado pela primeira vez em Weird Tales, dezembro de 1932
Texto original: The Phoenix on the Sword
Traduzido e revisado por Rafael L. G. Correia, com o auxílio de IAs
CAPÍTULO 4
Quando o mundo era jovem e os homens fracos, e os demônios da noite vagavam sem pudor,
Eu lutei contra Set usando fogo, aço e o sumo da árvore do açoite;
Agora que durmo no coração negro da montanha, e as eras vieram um preço cobrar,
Esquecei-vos daquele que contra a Serpente lutou para a alma humana salvar?
Solitário em seus aposentos reais, sob a majestosa cúpula dourada, o rei Conan entregava-se ao sono e aos sonhos. Por entre brumas plúmbeas que volteavam no ar, percebeu ele um chamado singular, tênue e longínquo, e, embora não lhe compreendesse o sentido, parecia-lhe impossível fazer-se indiferente àquele apelo. Empunhando a espada, transpôs a cerração acinzentada, tal qual um homem que caminharia pelas nuvens, e a voz tornava-se mais distinta à medida que ele avançava, até que enfim discerniu a palavra que ela enunciava — era seu próprio nome que ecoava através dos abismos do Espaço ou do Tempo.
Dissiparam-se então as névoas, e ele se viu num vasto corredor tenebroso que aparentava ter sido esculpido em sólida rocha negra. Não havia ali iluminação alguma, mas, por algum artifício sobrenatural, ele conseguia enxergar com singular clareza. O pavimento, o teto e as paredes, de polimento esmerado, emitiam um luzir difuso, e neles se entalhavam figuras de antigos heróis e divindades quase relegadas ao esquecimento. Estremeceu ao contemplar os enormes contornos sombrios dos Antigos Inomináveis, e de algum modo intuiu que pés mortais não haviam trilhado aquele corredor havia já muitos séculos.
Deparou-se com uma vasta escadaria lavrada na rocha maciça, cujas laterais eram ornadas com símbolos esotéricos de tal antiguidade e horror que a epiderme do rei Conan arrepiou-se. Cada degrau ostentava a figura abominável da Antiga Serpente, Set, de sorte que a cada passo ele assentava o calcanhar sobre a cabeça da Cobra, conforme a intenção desde as eras remotas. Tal circunstância, no entanto, não lhe proporcionava maior tranquilidade.
A voz, todavia, insistia em chamá-lo, e ele prosseguiu até que, por fim, em meio a trevas que seriam impenetráveis aos seus olhos materiais, adentrou uma estranha cripta onde avistou uma tênue figura de alva barba sentada sobre um túmulo. A cabeleira de Conan eriçou-se e ele empunhou firme a espada, mas a figura dirigiu-lhe a palavra em tons sepulcrais.
— Ó homem, conheceis-me vós?
— Não eu, por Crom! — jurou o rei.
— Homem — disse o ancião —, eu sou Epemitreus.
— Mas Epemitreus, o Sábio, há mil e quinhentos anos jaz no sono eterno! — balbuciou Conan.
— Ouvi-me! — ordenou o outro com inflexão autoritária. — Tal qual um seixo arremessado num lago escuro propaga ondulações até as margens mais distantes, assim os acontecimentos no mundo Invisível perturbaram meu sono qual ondas impetuosas. Tenho-vos observado atentamente, Conan da Ciméria, e o selo de grandes sucessos e feitos portentosos está sobre vós. Contudo, há infortúnios que se alastram pela terra, contra os quais vosso gládio de nada vos servirá.
— Falais por enigmas — disse Conan, inquieto. — Mostrai-me meu inimigo e fenderei seu crânio até os dentes.
— Reservai vossa fúria bárbara para vossos adversários de carne e sangue — respondeu o ancião. — Não é contra homens que devo proteger-vos. Existem mundos tenebrosos, apenas vagamente conjecturados pelos mortais, onde monstros disformes espreitam — demônios que podem ser atraídos dos Vazios Exteriores para assumir forma material e dilacerar e devorar sob as ordens de magos perversos.
Há uma serpente em vossa morada, ó rei — uma víbora em vosso reino, oriunda da Stygia, portadora da sombria sapiência das trevas em sua alma turva. À semelhança de um homem adormecido que sonha com a serpente que se arrasta nas proximidades, percebi a presença maligna do neófito de Set. Ele se acha ébrio de terrível poder, e os golpes que desfere contra seu inimigo podem muito bem fazer ruir o reino. Chamei-vos à minha presença para conceder-vos uma arma contra ele e sua matilha infernal.
— Mas por quê? — inquiriu Conan, perplexo. — Dizem os homens que repousais no âmago negro de Golamira, de onde enviais vosso espírito sobre asas invisíveis para socorrer a Aquilônia em tempos de necessidade, mas eu — eu sou um forasteiro e um bárbaro.
— Aquietai-vos! — as modulações fantasmagóricas reverberaram pela vasta caverna sombria. — Vosso destino e o da Aquilônia formam um só. Sucessos monumentais se tecem na urdidura e no ventre do Destino, e não há de ser um feiticeiro sedento de sangue que atravancará o caminho do destino imperial.
Eras passadas, Set cingiu o mundo à maneira de uma píton que enlaça sua presa. Durante toda a minha existência, que equivaleu à de três homens comuns, lutei contra ele. Rechaçei-o para as sombras do misterioso sul, mas na tenebrosa Stygia os homens ainda veneram aquele que, para nós, representa o arquidemônio. Assim como enfrentei Set, combato seus adoradores, seus devotos e seus acólitos. Estendei vossa espada.
Com espírito indagador, Conan assim o fez, e na magnífica lâmina, junto à pesada guarda de prata, o ancião traçou com um dedo descarnado um estranho símbolo que resplandeceu qual fogo alvo nas sombras. E no mesmo instante, cripta, túmulo e ancião se desvaneceram, e Conan, em estado de estupefação, ergueu-se de seu leito na grandiosa câmara de cúpula dourada.
E enquanto permanecia de pé, perplexo ante a singularidade de seu sonho, deu-se conta de que segurava sua espada na destra. E os cabelos de sua nuca se eriçaram, pois na larga lâmina achava-se gravado um símbolo — o contorno de uma fênix. E rememorou que, sobre o túmulo na cripta, vira o que julgara ser uma figura análoga, entalhada em pedra. Agora indagava a si mesmo se teria sido apenas uma figura esculpida, e sua pele arrepiou-se com a estranheza de toda aquela ocorrência.
Foi então que, enquanto ali se encontrava, um ruído furtivo no corredor externo despertou-o para a realidade e, sem deter-se para investigar, principiou a vestir sua couraça; era novamente o bárbaro, desconfiado e vigilante qual um lobo cinzento acuado.
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