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A FÊNIX NA ESPADA
Por Robert E. Howard
Publicado pela primeira vez em Weird Tales, dezembro de 1932
Texto original: The Phoenix on the Sword
Traduzido e revisado por Rafael L. G. Correia, com o auxílio de IAs
CAPÍTULO 5
Que sei eu de modos polidos, das artes e da dissimulação?
Eu, que nasci em terra sem lei e fui criado a céu aberto.
De nada valem língua arguta e astúcia sofista quando as lâminas cantam;
Aproximai-vos e morrei, cães — eu já era homem antes de ser soberano.
— A Estrada dos Reis
Vinte figuras furtivas moviam-se através do silêncio que envolvia o corredor do palácio real. Seus pés sorrateiros, descalços ou revestidos de couro macio, não produziam ruído algum sobre os espessos tapetes ou as lajes de mármore. As tochas dispostas nos nichos ao longo dos corredores lançavam reflexos rubros sobre punhais, espadas e machados de fino gume.
— Comedimento! — sibilou Ascalante. — Cessai essa maldita respiração ruidosa, seja quem for! O oficial da guarda noturna removeu a maioria das sentinelas destes corredores e embriagou as restantes, mas ainda assim devemos proceder com cautela. Recuai! Eis que vem a guarda!
Amontoaram-se por detrás de um conjunto de colunas esculpidas e, quase no mesmo instante, dez gigantes de armaduras negras passaram em marcha cadenciada. Seus semblantes denotavam dúvida, enquanto lançavam olhares ao oficial que os conduzia para longe de seus postos. Este oficial mostrava-se pálido; quando a guarda passou pela posição onde se ocultavam os conspiradores, viram-no enxugar o suor da fronte com mão trêmula. Era jovem, e tal traição ao rei não lhe vinha sem dificuldade. Amaldiçoava em silêncio a vaidosa extravagância que o havia endividado com agiotas e transformado em mero joguete nas mãos de políticos e suas maquinações.
Os guardas passaram ruidosamente e desapareceram no corredor.
— Excelente! — sorriu Ascalante. — Conan dorme desprotegido. Apressai-vos! Se nos surpreenderem no ato de assassiná-lo, estaremos perdidos… mas poucos homens defenderão a causa de um monarca sem vida.
— Sim, urgência! — instou Rinaldo, seus olhos azuis refletindo o brilho da espada que brandia acima da cabeça. — Minha lâmina está sedenta! Ouço a reunião dos abutres! Avante!
Percorreram o corredor com imprudente velocidade e detiveram-se diante de uma porta dourada que ostentava o emblema do Dragão Real da Aquilônia.
— Gromel! — bradou Ascalante. — Arrombai esta porta!
O gigante aspirou profundamente e arremessou seu corpo vigoroso de encontro aos painéis, que gemeram e vergaram sob o impacto. Recuou e novamente avançou. Com o estalar dos ferrolhos e o estrondo da madeira, a porta rachou-se e cedeu para dentro.
— Entrem! — vociferou Ascalante, inflamado pelo espírito da ação.
— Entrem! — gritou Rinaldo. — Morte ao tirano!
Detiveram-se. Conan os encarava; não um homem desnudo, acordado atônito e desarmado de sono profundo para ser abatido qual cordeiro, mas um bárbaro desperto e acuado, parcialmente armado, e com sua longa espada em punho.
— Venham, desgraçados! — bradou o fora da lei. — Ele está sozinho contra vinte e nem está com o elmo!
Verdade era; não houvera tempo para vestir o pesado capacete emplumado, ou para afivelar as placas laterais da couraça, tampouco havia agora tempo para tomar o grande escudo da parede. Ainda assim, achava-se Conan melhor protegido que qualquer um de seus oponentes, excetuando-se Volmana e Gromel, que trajavam armadura completa.
O rei os observou, intrigado quanto às suas identidades. Ascalante ele não conhecia; não lhe era possível enxergar através dos visores cerrados dos conspiradores armados, e Rinaldo havia puxado seu capuz desmazelado até a altura dos olhos. Mas não havia tempo para conjecturas. Com um brado que repercutiu no teto, os assassinos invadiram o aposento, tendo Gromel à vanguarda. Este avançou qual touro desenfreado, cabeça baixa, espada em posição para um golpe que arrancaria facilmente as entranhas do rei.
Conan adiantou-se para enfrentá-lo, e toda sua força felina concentrou-se no braço que empunhava a lâmina. Em arco sibilante, o grande ferro cortou o ar e atingiu o elmo do bossoniano. Espada e capacete partiram-se simultaneamente, e Gromel caiu sem vida no pavimento. Conan recuou, ainda empunhando o cabo partido.
— Gromel! — exclamou, os olhos ardendo de espanto, quando o capacete despedaçado revelou o crânio fendido; então, o restante do bando precipitou-se sobre ele. A ponta de uma adaga arranhou-lhe as costelas, entre as placas frontal e posterior da armadura, e o gume de uma espada passou-lhe rente aos olhos. Afastou o portador da adaga com o braço esquerdo e esmagou o cabo quebrado qual manopla na têmpora do espadachim. A massa encefálica do homem aspergiu-lhe o rosto.
— Protejam a porta, vocês cinco! — bradou Ascalante, rodopiando às margens do redemoinho formado pelo aço sibilante, pois receava que Conan pudesse abrir caminho entre eles e escapar. Os malfeitores recuaram momentaneamente, enquanto seu líder apanhava vários deles e os empurrava em direção à única porta. Naquele breve intervalo, Conan lançou-se em direção à parede e dela arrancou um antigo machado de guerra que, intocado pelo tempo, ali estivera suspenso por meio século.
Com as costas junto à parede, enfrentou o semicírculo que se fechava ao seu redor por um instante fugaz, e então saltou para o centro deles. Não era um lutador defensivo; mesmo ante probabilidades esmagadoras, sempre levava a guerra ao inimigo. Qualquer outro homem já teria ali sucumbido, e o próprio Conan não nutria esperança de sobreviver, mas ardentemente desejava infligir quanto dano pudesse antes de tombar. Sua alma bárbara estava incandescente, e os cânticos dos heróis antigos ressoavam-lhe nos ouvidos.
Ao projetar-se da parede, seu machado abateu um bandido decepando-lhe o ombro, e o terrível movimento de retorno da arma pulverizou o crânio de um segundo. Lâminas zuniam venenosamente ao seu redor, mas a morte passava-lhe rente por margens ínfimas. O cimério movia-se tal qual um borrão de velocidade ofuscante. Assemelhava-se a um tigre em meio a símios quando saltava, esquivava-se e girava, apresentando um alvo em perpétuo movimento, enquanto seu machado entretecia uma roda cintilante de morte a circundá-lo.
Por um breve lapso, os assassinos se aglomeraram ferozmente ao redor dele, desferindo golpes às cegas, sua própria vantagem numérica trabalhando contra eles; então recuaram de súbito — dois corpos prostrados sobre o solo davam mudo testemunho da fúria do rei, embora o próprio Conan sangrasse de ferimentos no braço, pescoço e pernas.
— Covardes! — bradou Rinaldo, arrancando o capuz, com uma expressão selvagem no olhar. Recuam da luta? O tirano vai viver? Que vergonha!
Avançou golpeando como um demente, mas Conan, reconhecendo-o, estilhaçou-lhe a espada com um golpe breve e pavoroso e, com um vigoroso impelir de mão aberta, prostrou-o no chão. O rei recebeu a ponta da espada de Ascalante no braço esquerdo, e o fora da lei por pouco preservou a vida ao agachar-se e saltar para trás do machado que rodopiava.
Novamente os lobos se lançaram, e o machado de Conan cantou e estraçalhou. Um patife cabeludo abaixou-se para esquivar-se do golpe e mergulhou contra as pernas do rei, mas depois de breve embate contra o que se assemelhava a uma torre de ferro maciço, ergueu o olhar a tempo de ver o machado em descida, mas não a tempo de evitá-lo. Nesse ínterim, um de seus camaradas ergueu uma espada larga com ambas as mãos e talhou através da ombreira encouraçada do rei, ferindo o ombro subjacente. Em um instante, a couraça de Conan estava inundada de sangue.
Volmana, empurrando os atacantes à direita e à esquerda numa impaciência selvagem, investiu com brutalidade contra a cabeça desguarnecida de Conan. O rei inclinou-se profundamente, e a lâmina decepou uma mecha de seus cabelos negros ao passar silvando sobre ele. Conan girou sobre o calcanhar e golpeou em movimento lateral. O machado estilhaçou a couraça de aço e Volmana tombou com todo o flanco esquerdo esmigalhado.
— Volmana! — arfou Conan. — Reconheceria esse anão até no inferno! — Endireitou-se para enfrentar o ataque desvairado de Rinaldo, que avançava feroz e desguarnecido, munido apenas de um punhal. Conan recuou, erguendo seu machado.
Rinaldo! — sua voz era estridente com urgência desesperada. — Recua! Não quero te matar…
— Morre, tirano! — bradou o menestrel enlouquecido, arremessando-se contra o rei. Conan segurou o golpe que relutava em desferir até que fosse demasiado tarde. Somente quando sentiu a ferroada do aço em seu flanco desprotegido, revidou num frenesi de desespero cego.
Rinaldo desabou com o crânio partido, e Conan recuou até a parede, com sangue a escorrer por entre os dedos que comprimiam seu ferimento.
— Agora! Ataquem e matem ele! — exclamou Ascalante.
Conan apoiou as costas na parede e ergueu o machado. Permaneceu imóvel, como um ídolo indomável — pernas afastadas, cabeça projetada à frente, uma mão firmada na parede e a outra sustentando o machado erguido, com os possantes músculos a evocar cordilheiras de ferro, e seu semblante congelado num rosnado feroz e mortal — seus olhos abrasando terrivelmente através da névoa de sangue que os velava. Os homens vacilaram — ainda que fossem criminosos selvagens e imorais, provinham de uma linhagem que os homens qualificavam como civilizada, com ascendentes civilizados; ali estava um bárbaro — um matador nato. Recuaram — o tigre moribundo ainda podia ocasionar-lhes a morte.
Conan percebeu a incerteza do bando e sorriu, feroz e jubiloso. — Quem vai morrer primeiro? — murmurou através dos lábios inchados e ensanguentados.
Ascalante saltou qual lobo, quase parando em pleno ar com uma agilidade incrível e caiu prostrado para esquivar-se da morte que sibilava em sua direção. Agitou os pés freneticamente, desviou-se e rolou para longe quando Conan, ao recuperar-se do golpe malogrado, atacou novamente. Desta feita, o machado afundou algumas polegadas no pavimento polido, próximo às pernas inquietas do adversário.
Outro desesperado imprudente elegeu esse instante para atacar, seguido sem entusiasmo por seus comparsas. Pretendia eliminar Conan antes que o cimério conseguisse arrancar seu machado do solo, mas seu juízo foi falho. O machado rubro ergueu-se e desceu, e uma caricatura escarlate do que outrora fora um homem foi arremessada contra as pernas dos atacantes.
Nesse momento, um grito aterrador irrompeu dos facínoras à porta quando uma sombra disforme e negra projetou-se na parede. Todos, à exceção de Ascalante, voltaram-se ao ouvir aquele clamor e, então, uivando como cães, precipitaram-se cegamente pela porta em turba delirante e blasfema, dispersando-se pelos corredores em fuga desenfreada.
Ascalante não olhou para a porta; tinha olhos apenas para o rei ferido. Supôs que o fragor do embate havia finalmente despertado o palácio, e que os guardas leais caíam sobre ele, embora mesmo naquele momento lhe parecesse estranho que seus cruéis sicários gritassem tão desesperadamente em sua fuga. Conan também não olhou para a porta, porque observava o fora da lei com os olhos ardentes de um lobo moribundo.
Mesmo naquela situação extrema, a filosofia cínica de Ascalante não o abandonou.
— Tudo parece perdido, principalmente a honra — murmurou. — Mesmo assim, o rei está morrendo de pé — e… — Quaisquer outras cogitações que pudessem ter-lhe perpassado a mente jamais serão conhecidas, pois, deixando a sentença inacabada, lançou-se ligeiramente contra Conan justo quando o cimério foi compelido a usar o braço que empunhava o machado para limpar o sangue de seus olhos obstruídos.
Mas, ao iniciar seu ataque, houve um estranho movimento no ar e um peso formidável atingiu-o terrivelmente entre os ombros. Foi arremessado de cabeça para baixo e grandes garras afundaram-lhe lancinantemente na carne. Contorcendo-se em desespero sob seu agressor, virou a cabeça e encarou o semblante do pesadelo e da loucura.
Sobre ele avolumava-se uma vasta criatura negra que ele sabia não haver nascido em mundo algum são ou humano. Suas presas negras e espumejantes encontravam-se próximas à sua garganta, e o fulgor de seus olhos amarelos retraía os seus membros como um vento mortal ressequece o milho tenro.
A hediondez de seu semblante transcendia a mera bestialidade. Poder-se-ia dizer ser o rosto de uma múmia antiga e maligna, animada por vida demoníaca. Naquelas feições abomináveis, os olhos dilatados do insurgente pareciam vislumbrar, como uma sombra na loucura que o envolvia, uma semelhança tênue e terrível com o escravo Thoth-amon. Então, a filosofia cínica e autossuficiente de Ascalante o abandonou e, com um brado pavoroso, entregou seu espírito antes mesmo que as presas assassinas o tocassem.
Conan, limpando dos olhos as gotas de sangue, quedou-se petrificado. A princípio, supôs tratar-se de um grande mastim negro que jazia sobre o corpo distorcido de Ascalante; então, à medida que sua visão aclarava-se, percebeu não ser nem cão nem babuíno. Com um brado que era qual eco do estertor de Ascalante, afastou-se da parede e enfrentou o horror que saltava, arremessando seu machado com toda a potência desesperada de seus nervos eletrificados. A arma lançada ricocheteou melodiosamente do crânio que deveria ter estilhaçado, e o rei foi projetado ao outro extremo da câmara pelo impacto do corpo colossal.
As mandíbulas babujantes cerraram-se no braço que Conan erguera para proteger a garganta, mas o monstro não se empenhou em manter uma mordida fatal. Por sobre o braço dilacerado, fitou diabolicamente os olhos do rei, nos quais começava a refletir-se uma similitude com o horror que resplandecia nos olhos mortos de Ascalante. Conan sentiu sua alma ressequir-se e principiar a extirpar-se de seu corpo, para afogar-se naqueles poços amarelos de horror cósmico que fulguravam espectralmente no caos disforme que se avolumava ao seu redor e tragava toda a vida e sanidade.
Aqueles olhos cresceram e tornaram-se gigantescos, e neles o cimério vislumbrou a realidade de todos os horrores abismais e blasfemos que espreitam na escuridão externa de vacuidades amorfas e abismos escuros. Abriu os lábios ensanguentados para bradar seu ódio e repugnância, mas apenas um estertor árido irrompeu de sua garganta.
Mas o horror que paralisara e destruíra Ascalante despertou no cimério uma fúria frenética análoga à loucura. Como uma explosão vulcânica, projetou todo o seu corpo para trás, ignorando a agonia de seu braço dilacerado, arrastando o corpo da criatura consigo. E sua mão estendida atingiu algo que seu cérebro entorpecido pelo combate reconheceu como o cabo de sua espada quebrada. Instintivamente, agarrou-o e golpeou com toda a potência de nervos e músculos, como um homem que apunhala com uma adaga.
A lâmina quebrada afundou profundamente e o braço de Conan foi libertado quando a boca da abominação se escancarou em agonia. O rei foi violentamente arremessado para o lado e, erguendo-se sobre uma mão, contemplou, assombrado, as terríveis convulsões do monstro do qual sangue espesso jorrava através da grande ferida que sua lâmina quebrada havia causado. E enquanto observava, as convulsões cessaram e, por um instante, a criatura permaneceu no chão, em meio a espasmos, olhando para cima com seus terríveis olhos mortos. Conan piscou e sacudiu o sangue de seus próprios olhos; afigurou-se-lhe que a coisa dissolvia-se e desintegrava-se numa massa disforme e viscosa.
Foi então que uma confusão de vozes chegou aos seus ouvidos, e a sala foi inundada pelas pessoas da corte, finalmente despertas — cavaleiros, fidalgos, damas, soldados, conselheiros — todos tagarelando e gritando e se colocando um no caminho do outro. Os Dragões Negros, enfurecidos e contrariados, amaldiçoavam em línguas estrangeiras com as mãos sobre os cabos das espadas. Do jovem oficial da guarda da porta nada se avistou, nem foi ele posteriormente encontrado, embora diligentemente procurado.
— Gromel! Volmana! Rinaldo! — exclamou Publius, o alto conselheiro, enquanto apalpava os cadáveres com suas mãos gordas. — Infame traição! Alguém irá pagar por isso! Chamem a guarda!
— A guarda está aqui, seu velho insensato! — repreendeu com aspereza Pallantides, comandante dos Dragões Negros, esquecendo-se da patente mais alta de Publius no tumulto do momento. — É preferível que cesseis esse escândalo e nos auxilieis a tratar dos ferimentos do rei. Desse modo, ele sangrará até a morte!
— Sim, sim — assentiu Publius, que era homem de planejamentos e não de ações. — Devemos tratar de seus ferimentos. Mandai trazer todas as sanguessugas da corte! Ah, majestade… que vergonha para esta cidade! Estarão realmente mortos?
— Vinho! — arfou o rei do sofá onde o haviam deitado. Colocaram um cálice em seus lábios ensanguentados, e ele bebeu como um homem quase exaurido pela sede.
Excelente — grunhiu ele, recostando-se —, matar é um ofício maldito e que provoca sede.
Haviam estancado o sangue, e a vitalidade inata do bárbaro principiava a ressurgir.
— Cuidai primeiro da punhalada em meu flanco — ordenou aos médicos da corte. — Rinaldo escreveu-me uma canção mortal, e utilizou uma pena assaz afiada.
— Há muito deveríamos tê-lo enforcado — disparou Publius. — Nenhum bem pode advir dos poetas… Quem é este?
Ele tocou nervosamente o corpo de Ascalante com a ponta do pé calçado.
— Por Mitra! — exclamou o comandante. — É Ascalante, outrora conde de Thune! Que obra demoníaca o trouxe de suas paragens assombradas até aqui?
— Mas o que há com seu olhar? — Publius sussurrou, recuando, os próprios olhos dilatados, enquanto sentia um eriçar peculiar dos pelos da nuca. Os demais permaneceram em silêncio enquanto fitavam o bandido morto.
— Se tivésseis contemplado o que ele e eu vimos — o rei grunhiu, sentando-se ereto apesar dos protestos dos médicos —, não faríeis tal indagação. Entorpecerá vossos olhares quando virdes… — Interrompeu-se boquiaberto, seu dedo apontando inutilmente para o vazio. Onde o monstro havia expirado, havia apenas o pavimento vazio.
Por Crom! — jurou. — A criatura dissolveu-se de volta à imundície de onde veio!
— O rei está delirando — murmurou um nobre. Conan ouviu e praguejou com bárbaro fervor.
— Por Badb, Morrigan, Macha e Nemain! — concluiu encolerizado. — Estou perfeitamente são! Era como um cruzamento entre uma múmia estígia e um babuíno. Atravessou a porta, e os canalhas de Ascalante fugiram ao avistá-la. Assassinou Ascalante, que estava prestes a traspassar-me. Então atacou-me, e eu a matei — não sei como, pois meu machado ricocheteou nela como se fosse uma rocha. Mas creio que o sábio Epemitreus tenha participação nisso…
— Escutai como ele menciona Epemitreus, falecido há mil e quinhentos anos! — sussurraram uns aos outros.
— Por Ymir! — trovejou o rei. — Esta noite eu dialoguei com Epemitreus! Ele chamou-me em meus sonhos, e caminhei por um corredor negro de pedra com deidades antigas entalhadas, até uma escadaria pétrea em cujos degraus havia os contornos de Set, até alcançar uma cripta e um túmulo com uma fênix esculpida…
— Em nome de Mitra, majestade, silenciai! — Foi o sumo sacerdote de Mitra quem bradou aquilo, seu semblante pálido como cinza.
Conan ergueu a cabeça como um leão a sacudir a juba, e sua voz soou densa como o rugido irado do felino. — Sou porventura um escravo para emudecer ao vosso comando?
— Não, não, majestade! — O sumo sacerdote tremia, mas não por temor da ira real. — Não almejei ofender-vos. — Aproximou a cabeça do rei e falou num sussurro que chegou apenas aos ouvidos de Conan.
Majestade, este é um assunto que transcende a compreensão humana. Somente o círculo interno do sacerdócio conhece o corredor negro de pedra esculpido no coração negro do Monte Golamira, feito por mãos desconhecidas, ou o túmulo guardado pela fênix, onde Epemitreus repousa há mil e quinhentos anos. E desde aquela época, nenhum homem vivente adentrou tal lugar, pois seus sacerdotes escolhidos, após depositarem o Sábio na cripta, obstruíram a entrada externa do corredor de modo que ninguém pudesse encontrá-la, e hoje nem mesmo os sumos sacerdotes conhecem sua localização. Apenas por tradição oral, transmitida pelos sumos sacerdotes aos poucos eleitos e zelosamente guardada, é que o círculo interno dos acólitos de Mitra conhece o local de repouso de Epemitreus no coração negro de Golamira. É um dos Mistérios em que se fundamenta o culto de Mitra.
— Não posso dizer por qual magia Epemitreus conduziu-me até ele — respondeu Conan. — Mas conversei com ele, e ele fez uma marca em minha espada. Por que tal marca a tornou mortal para demônios, ou que magia reside na marca, eu não sei; mas embora a lâmina tenha se quebrado no elmo de Gromel, o fragmento foi suficientemente longo para eliminar o horror.
— Permiti-me ver vossa espada — sussurrou o sumo sacerdote com a garganta subitamente ressequida.
Conan estendeu a arma quebrada, e o sumo sacerdote bradou e caiu de joelhos. — Que Mitra nos proteja dos poderes das trevas! — exclamou ele. — O rei realmente conversou com Epemitreus esta noite! Ali na espada… está o sinal secreto que ninguém além dele poderia fazer… o emblema da fênix imortal que paira eternamente sobre seu túmulo! Uma vela, com presteza! Observai novamente o local onde o rei afirmou que o ser demoníaco expirou!
O local achava-se à sombra de um biombo avariado. Afastaram-no e banharam o pavimento com a luz de uma vela. Um silêncio estremecedor abateu-se sobre as pessoas que observavam. Então, alguns prostraram-se de joelhos invocando Mitra, enquanto outros fugiram da câmara com brados de horror.
Ali, no solo, onde o monstro morrera, havia, como uma sombra tangível, uma vasta mancha escura que não poderia ser lavada; a criatura havia deixado seus contornos claramente impressos com seu próprio sangue, e aquela forma não pertencia a ser algum nascido em um mundo são e normal. Sinistra e medonha, a mancha pairava ali, como a sombra projetada por uma das divindades símias que se acocoram nos altares lôbregos dos templos obscuros na terra distante da Stygia.
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